21 março, 2020

Bom retiro

Bom retiro

Um sítio pra criar ovelha e galinha, ia plantar batata, batata doce, mandioca e bergamota, ia ter um pé de butiá grande na porteira e muita sombra perto de casa, ia ter uma carroça mas não ia ter cavalo pois nunca aprendi andar a cavalo, teria uns dois ou três cusco vadio e de noite ia ouvir os graxaim e uns mão pelada por perto de vez em quando, ao anoitecer ia ter uns quero-quero num descampado logo abaixo e de manhã eu ia ver o cerro coberto de geada pra logo no meio dia chorar um pouco de saudade, a tardinha capinar a horta e na madrugada teria sonhos e amigos junto de vinho, amendoim e fumaça, a vida seria simples e o fim próximo, mas ia tudo bem, tudo ia bem.

Março de 2020

30 setembro, 2018

30 de setembro de 2018/inacabado

O fenômeno Bolsonaro e o recrudescimento do fascismo nosso de cada dia está aí, dado à luz do dia, os esqueletos caíram do armário e não há mais armários para ocultá-los. A tarefa agora que se impõe é uma grande análise institucional, num sentido mais próximo do sentido psicanalítico do termo, da nossa sociedade e de nossa história, assim como a África do Sul fez com o presidente Nelson Mandela após o fim do regime de apartheid, ou ainda mais perto, como tem feito nossos vizinhos uruguaios, argentinos e chilenos a respeito de seus períodos ditatoriais. Não é mais possível que se viva sob à sombra do militarismo e de suas ameaças. O mais próximo que tivemos desse tipo de análise de nossa história foi com a comissão da verdade que teve pouca ou quase nenhuma repercussão na sociedade brasileira. Não tanto por conta dos interesses do governo Dilma, talvez pelos acordos com os setores militares, mas sobretudo por causa de uma condescendência da mídia em não dar a visibilidade necessária para esses debates no âmbito nacional. A mídia brasileira é condescendente com o recrudescimento do fascismo em não fazer nenhum tipo de crítica às crescentes manifestações de ódio ao longo do anos. Muitos dividem essa conta e devem dividir a responsabilidade.

12 setembro, 2018

12 de setembro de 2018/ inacabado

Sou contra o voto útil! Tanto que num futuro segundo turno entre o milico e o Andrade, vou votar branco. Assim mesmo, branco! Querem descambar o país pro colapso, então vamos abraçar de uma vez o capeta. Talvez assim, no ponto mais alto do esgotamento dos arranjos políticos institucionais, se opere alguma mudança. Já se brincou demais com as contradições da legalidade política, jurídica e institucional brasileira para ofertar pra população um retorno do que poderia ter sido melhor e não foi, arriscando a própria estabilidade futura do processo. Dilma foi tirada do alto de sua legitimidade eleitoral e política, porque acham que a partir do dia 1º de janeiro de 2019 estabilizaremos os ânimos no país rumo ao progresso e ao desenvolvimento? Ingenuidade de quem já esqueceu por quê grita golpe, golpe, golpe. Não há uma candidatura de centro-esquerda sem o telhado de vidro, então que se quebre de uma vez o protocolo. Não se fique brincando de ONU pra lá e pra cá. Se respeitou todos os ritos na ingênua confiança de um respeito a letra fria da lei, como se os processos todos já não estivessem viciados desde o seu início. O partido dos trabalhadores já deu provas suficientes de que ou a esquerda é com eles ou contra eles, não abandonando a hegemonia do cabeça de chapa.

01 setembro, 2018

01 de setembro de 2018/ inacabado

Já repararam que não tem esquerda no Brasil? Não tem uma identidade de esquerda. Alguns dizem que o PT não é esquerda, que o PDT não é esquerda, que o PCdoB não é esquerda, ninguém é de esquerda. Talvez por isso a dificuldade tão grande de uma frente ampla de esquerda, talvez por isso a dificuldade de alianças nacionais progressistas. Porque ninguém é de esquerda, e a esquerda que acusa esses partidos de não serem de esquerda, é uma esquerda eleitoralmente insignificante, com poucos congressistas, bancadas minúsculas e poucos cargos no executivo. Não quer dizer que não sejam boas e batalhadoras bancadas, mas que são bancadas com poderes e apoios ínfimos. Também não há uma forte identificação popular com a esquerda e também com suas pautas. Existe muita identificação com pessoas, figuras políticas específicas da esquerda, mas muitas vezes as pessoas que admiram essas figuras não se reconhecem como esquerda, não se identificam com a esquerda eleitoralmente falando. De modo que uma transferência de votos de uma figura ímpar da política nacional para a esquerda não é uma regra, talvez muito menos uma tendência. Claro que existem muitas esquerdas, muitos tipos de identificação, muitos comportamentos eleitorais e etc. Mas até quando discutiremos o sexo dos anjos da esquerda. Até quando o discurso do somos pequenos, mas somos idôneos vai ser suficiente para realmente conquistar alguma coisa e pôr um pouco em prática os ideais e políticas para aqueles que mais precisam? Me parece que o discurso do "somos pobres mas somos limpinhos" não tem ganho tanto apoio assim, com algumas e talvez parcas e isoladas exceções. E eu não estou falando de um partido específico que por acaso começa com P e termina com SOL, mas isso também vale para partidos maiores e mais antigos que já conquistaram lugares importantes, mas que parecem estar travados, empenados nos 20% da população. O que é bem verdade é que temos poucas lideranças nacionais capazes de aglutinar em torno da legenda uma identificação maior. Brizola, Lula, Dilma e até mesmo Ciro ainda são poucas exceções num cenário que tem afunilado ainda mais. Brizola já morreu e Lula, ao que parece, ficará um bom tempo preso.

28 agosto, 2018

28 de agosto de 2018

Acabei de assistir a entrevista/sabatina do Guilherme Boulos na TV Brasil e digo que é visível o quanto ele evoluiu como candidato à presidência da República nas últimas semanas. Eu ainda não decidi meu voto pra presidente e com certeza vai ser o voto mais difícil dessas eleições, mas é muito bom ver o alto nível e a clareza de propostas e soluções que a candidatura do PSOL tem mostrado. Desde o início da campanha, um pouco antes também, a candidatura do Boulos apostou nas frases prontas na linguagem dos memes e nas tentativas de lacração, mas deu pra percebeu que ele deu uma grande melhorada nesse aspecto, mostrando uma maturidade política que só tem a crescer nos próximos anos.
Para mim, o maior compromisso da esquerda nessas eleições é interromper o crescimento alarmante do candidato fascista. Penso que menos lacração e mais firmeza em desmontar as visíveis e flagrantes incoerências e fragilidades do discurso de Bolsonaro é o caminho pra alcançar aqueles eleitores indecisos que não se identificam com o perfil do Bolsonaro, mas que querem soluções rápidas e efetivas para seus problemas cotidianos. Eu também penso que vai ser muito difícil converter eleitores racistas, machistas, homofóbicos e herdeiros da ditadura pra esquerda. Mas é preciso atentar para a complexidade da população e do eleitorado brasileiro que, num cenário sem Lula, opta por Bolsonaro ou outros candidatos da direita pela insatisfação e pela não identificação com as pautas e com o discurso da esquerda que é, muitas vezes, distante e difícil para a realidade da maioria da população brasileira.
Embora eu defenda a liberdade de Lula e denuncie a flagrante perseguição política e jurídica, considero que a aposta na candidatura de Lula nos expõe a um risco eminente. Não me parece claro que, na previsível impugnação da candidatura de Lula pelo TSE, haverá uma transferência de votos de Lula para a chapa Haddad e Manuela tanto quanto o partido dos trabalhadores prevê, e chegar no segundo turno parece ser o maior desafio das candidaturas progressistas. Ciro e Marina despontam como os candidatos com maior musculatura política, no meu entendimento, para enfrentar os desafios que se anunciam. Queria eu, num plano ideal de realidade, que um candidato de centro minimamente progressista pudesse nos tirar dessa já desgastada polarização eleitoral entre PT e PSDB. E não penso nisso como uma mudança pela mudança, porque não desejo qualquer candidato, mas penso nisso como forma de vislumbrar uma democracia mais madura e mais estável que contemple realmente um projeto de país e nação para as gerações futuras. Quero dizer com isso que nos condicionamos nessa polarização e nos limitamos com isso.

10 agosto, 2018

10 de agosto de 2018/Inacabado

Acompanhar teorias da conspiração não é acreditar nelas, é saber como funcionam, como surgem, como se espalham e se propagam, quem as operacionalizam, quem as financiam e quem são os que se orientam a partir delas. Criar toda sorte de teorias e complôs não é um absurdo de pessoas com sintomas persecutórios, é uma estratégia de subjetivação discursiva, uma estratégia de orientação política de combate cultural, é uma estratégia propagandista de convencimento nenhum pouco nova e nem um pouco ineficiente. Acreditamos, dentro da esquerda, que muitas dessas estratégias são da ordem da ficção, de um misticismo persecutório que não deve ser levado a sério, mas mesmo essas ficções são vendidas como verdades para pessoas comuns, indefesas aos ataques...

12 junho, 2018

12 de junho de 2018

Se vocês estão comparando a Copa do Mundo FIFA com o prêmio Nobel, comparando os méritos entre os países que os conquistaram. Vocês precisam estudar minimamente um pouco da história do prêmio Nobel e dos brasileiros que já foram indicados a ele. Como tudo no mundo é política e jogo de influências, no prêmio Nobel não seria diferente. É a mesma história de por que o José Sarney é imortal da Academia Brasileira de Letras e o Mario Quintana não. A comparação que vocês fazem é esdrúxula e só afasta as questões dos verdadeiros problemas. Se a Copa é o pão e circo dos brasileiros, vamos comer e brincar até se esbaldar, porque a brincadeira e a festa também são parte da política. O futebol é tão político quanto a história de suas instituições (FIFA e CBF). Parte da esquerda brasileira descobriu como que por acaso que os caminhoneiros são uns bárbaros que não escutam Bossa Nova e Caetano Veloso e agora separam, num outro ataque de elitismo intelectual, o entretenimento proporcionado pelo mundial da vida política. Como se já não fôssemos roubados e achacados sem nem gritar gol. Ainda mais gritando. Se o Brasil é, ou era até 2014, uma potência só no futebol mundial, o problema não é intrínseco ao futebol, ou a qualquer outro desporto coletivo, mas de uma série de outros fatores e atravessamentos históricos e geopolíticos.
Não há conscientização sem educação e isso é sabido, mas assim como Paulo Freire ensinava sobre a importância de um pedagogia da autonomia que reconhecesse os saberes e valores prévios das pessoas, é preciso minimamente entender como pensa e o que deseja o "povo", o cidadão comum para construir a conscientização do seu papel político (e revolucionário) no mundo. A conscientização e o senso crítico não virão com La Casa de papel, ou qualquer série muito que bem intencionada fruto da alta cultura do entretenimento streaming, nem nas sofregas leituras matutinas de um Dostoiévski no café da manhã contemplando o vazio da existência e o sem sentido da vida. Embora uma pesquisa recente tenha relevado que há alguma politização através dos memes, nós bem sabemos que - e eu sei que não mais que uns poucos amigos aqui vão ler esse texto até seu final - certas coisas não ultrapassam a nossa bolha dentro das redes sociais. Então, sem querer ser fiscal de porra nenhuma, mas já sendo, você não está ajudando em nada em construir uma crítica realmente relevante comparando Brasil e Canadá em mundiais de futebol e prêmios Nobel (seja lá de que área do Nobel seja). Os alemães, ingleses e franceses tem também vários prêmios Nobel e também se interessam tanto quanto os brasileiros pelo futebol, mas qual é a verdadeira diferença que temos em relação a eles?

11 dezembro, 2017

11 de dezembro de 2017

Concordo que Auschwitz seja um paradigma sobre o problema da modernidade para a filosofia ocidental, mas tenho me perguntado nesses últimos dias se para os filósofos, não só para os brasileiros e latinoamericanos, nossos genocídios não são importantes paradigmas para se fazer filosofia? Será que 500 anos de genocídio dos povos originários não são um problema filosófico relevante? Será que 300 anos de escravidão do povo negro não é um problema em se levar em conta? Será que nossas décadas de ditaduras militares não são importantes problemas para a filosofia? Será que nossas milhares de vítimas de sistemas opressores não são importantes para lançar um olhar sobre o problema da razão, do direito, da ciência, do poder e até da ontologia, epistemologia, metafísica? Salvo as muitas exceções de filósofos e demais pesquisadores e estudiosos que se debruçam sobre esses estigmas há anos, ainda me faço essas questões como forma de pensar em quão atuais elas ainda nos são, de como elas formam nossa realidade nos detalhes e também nos arranjos estruturais da sociedade brasileira e latinoamericana. Ainda hoje os indígenas são assassinados pelo simples fato de serem indígenas, isso não nos diz algo sobre a anulação do outro, sobre a extinção do outro, sobre a banalidade do mal por exemplo? Isto é, existe um paralelo possível entre as questões suscitadas pelo genocídio do holocausto judeu e os nossos genocídios. Existe um ponto comum entre as consequências dos projetos de modernidade sobre os povos americanos e africanos com o extermínio nazista do povo judeu. Isso sem escala de importância, pois são irmãos em suas tragédias. Mas não seria possível pensar as reservas indígenas sob o mesmo paradigma do campo de concentração? Pois o problema que torna Auschwitz o ponto de ruptura que faz filósofos como Adorno e Agamben lançarem a questão de como pensar ou viver depois de Auschwitz, é um problema que vem ocorrendo nas Américas e na África desde o século 16 ininterruptamente. Isto é, uma solução final, um extermínio perpetrado em nome da civilização, em nome do progresso, sem falar em nome do capital. E a mediação do capital, da exploração das riquezas naturais e humanas dessas terras é colocada quase como uma desculpa que justifica esses crimes como se estes não fossem motivados pelo ódio puro e simples. Apenas os nazistas odiaram suas vítimas, as vítimas dos outros foram apenas contingências da ganância dos exploradores. No fundo, negros e indígenas foram objetos exóticos que sequer foram alçados à categoria de humanos em plena igualdade enquanto vítimas. E se os judeus foram anulados enquanto humanos por seus algozes nazistas, o povo negro e indígena não chegou a esse ponto por seus dominadores europeus. Então a pergunta que me faço é, como viver depois do extermínio negro e indígena? Como pensar a educação depois da escravidão? O que resta do humano depois do racismo? Parecem questões que levam ao problema de que não é Auschwitz que funda o imperativo político-moral que vivemos, mas foi a dominação desses povos que fez Auschwitz possível.

19 novembro, 2017

19 de novembro de 2017

Fazemos um esforço muito grande para não decepcionar as pessoas, mas eventualmente isso irá acontecer e a vida é um constante pisar firme sobre todos os ovos. Quer dizer, não há ovos intactos e somos seres falíveis em tudo, por mais óbvio que isso seja e por mais difícil seja incorporar essa mentalidade em nossos modos de viver. Sempre que se aproxima o final do ano, e parece que esse ano não acaba nunca, pensamos em todos os possíveis que não realizamos, todos os erros que cometemos ou deixamos de cometer, lembramos toda dor e angústia de um ciclo tal como os outros. E como seria mais fácil viver dentro de uma programação que obedecesse toda a previsibilidade de viver sem riscos, sem dor, sem sofrimento, sem a torturante dúvida do dia de amanhã. Por isso criamos mapas, céus, cartas que nos guiam nessa escuridão do viver uma vida que contranaturalmente nos joga na solitária e dura realidade de sermos livres como seres humanos para construir e criar nossos próprios sentidos, como se isso nos afastasse eternamente de qualquer herança selvagem, qualquer herança animal predisposta, qualquer instinto inevitável de seguirmos os caminhos do destino, qualquer destino. E assim trocamos rotas, trocamos trocamos veredas e desejos.

04 novembro, 2017

4 de novembro de 2017

O trabalho intelectual é sobrevalorizado quando se trata de crises existenciais e filmes indie. É sempre um sujeito que está no meio de uma crise e escreve um romance. Penso que as funções terapêuticas das enxadas são menosprezadas nesses casos. Eu mesmo, no meio de um episódio depressivo profundo, faço uso da enxada para me livrar das ervas daninhas do meu pequeno lote de terra no subúrbio.

23 outubro, 2017

23 de outubro de 2017

Curioso o cinema ter nascido mudo e a palavra habitar uma trama de gestos e expressões. E se fosse o contrário, e o cinema habitasse a palavra como que criando casa nas vírgulas e assentos? E se se tocasse a tela como quem toca o papel cheio de ranhuras e rasuras de palavras recém traçadas?

06 agosto, 2017

06 de agosto de 2017

Tudo que eu já fiz foi invencionice e muito dessas coisas já não são tão reais como foram no momento em que as escrevi. Com todo tipo de erro e superficialidade, rever as coisas que já fiz me servem pra me colocar numa saudável posição de ignorante e crítico de mim mesmo. Quando escrevemos nos enchemos de um bom orgulho e narcisismo de quem quer pegar o mundo todo na mão, mas também é bom ver depois quantos dedos faltavam para fazer isso. Tenho notado como meu processo criativo é diferente nas diferentes coisas que faço. De como me deixo tomar por certo impulso criativo meio associativo meio catártico quando escrevo um poema ou uma reflexão. Ou de como faço um esforço muito grande para escrever um material acadêmico, esforço que desconhecia tão intensamente antes de começar a pós-graduação. Por isso as faltas, as incompletudes, os defeitos de quem começa uma coisa nova sempre. Parece que quando escrevo coisas desse tipo sempre escrevo como se fosse a primeira vez, porque nunca sei o que é pra fazer, como começar e pra onde quero ir. Não aprendi os modelos e me esforço pra me encaixar a eles por uma obrigação que por muitas vezes desconheço. E as razões que a motivam também me são desconhecidas, porque adaptar-se vem sempre antes de incomodar-se. E quando se percebe o quanto se está incomodado com alguma coisa, aí que se percebe uma presença que antes se ignorava. É como quando se nota uma pedra no sapato só depois de começar a andar. Sendo que muitas vezes se anda o caminho inteiro com o incomodo da pedra por vergonha de parar no meio do caminho, aos olhos de todo transeunte. Por isso admiro quem tira o calçado e começa a andar de pé no chão. Talvez por isso eu tenha demorado pra aprender a amarrar os sapatos e hoje viva com os nós já dados pelo conforto de só enfiar o pé. E quando se demora pra aprender alguma coisa num tempo que cobra pelos atrasos, se aprende quase como de um jeito próprio uma tarefa comum mas sútil.

04 agosto, 2017

Sujeira, 04 de agosto de 2017

Tudo é sujeira, pó e matracas.
Tudo é lixo, pingentes e brilhantes.
Só resta armadilha, fedor e leite rançoso.
Puritano nem é gente que se preze,
pra começar uma conversa.
Começa com sopro e termina com golpe.
Puritano nem é gente que se limpa direito,
está sempre sujo e fedorento.
Fedor de sangue, sêmen e bruxaria.

31 julho, 2017

31 de julho de 2017

Quanto mais rígidos os limites, mais forte é o impacto de uma força contrária. Porém, quanto mais esfumaçados são esses limites, maior o estrago para recompor as mesmas formas após o impacto. Muito se diz sobre resiliência e talvez pouco se entenda o sentido que está por trás dessa ideia. Sendo a resiliência a propriedade de um corpo retomar a mesma forma após o trauma, pode-se dizer que a agressão a esse limite só o faz tomar a mesma forma após o episódio. Isto é, a rigidez dos seus limites faz com que a sua forma seja recuperada mesmo após um impacto, porque a identidade desses limites se vê, de certa forma, resguardada das forças desses impactos. Contudo, quando se pensa na porosidade desses limites, quando se pensa na maleabilidade de sua indeterminação, é possível supor que o impacto sempre provoca uma nova forma, porque a forma anterior não era, por assim dizer, uma ordem unívoca. Isto é, seus limites não compunham uma totalidade que engolfasse os impactos como recuperação de si mesmo, pois não é possível rememorar as suas formas anteriores, senão partir para a formação de outras formas por vir. Mas aqui a ideia não é a falta de formas que excluem uma certa consistência, mas diz respeito a quebra e a remontagem dessas formas conforme a rigidez dos seus limites. Bom, talvez minha percepção esteja enganada e seja isso tudo o contrário conforme a física. Mas o meu ponto surge quando me deparo com a dificuldade, num exercício de "problematização", "desconstrução", de remontar outras formas a partir dos impactos da critica a essas estruturas enrijecidas. Isto é, - e aqui eu não estou usando nenhum conceito foucaultiano ou derridiano mas a ideia de crítica e de desmonte de estruturas conservadoras que costumeiramente ouvimos falar - o problema é de como essas práticas de problematizar e desconstruir atingem o limite contrário de sua capacidade de crítica quando ao problematizar e desconstruir identidades, se aferram ainda mais fortemente a outras identidades contrárias contra-identificadas na tentativa, um pouco superficial, de atingir uma certa radicalidade.
Parece que a tentativa de alcançar uma radicalidade acaba por dar de cara com certo radicalismo autocentrado em sua própria identidade que determina, por oposição, o seu outro antagônico. Quer dizer, aqui a raiz - aquilo de mais profundo e basilar que expõe a fundação dessas formas, isto é, aquilo que sustenta desde a base o que engendra essas formas, se torna por um simples jogo de oposição, o reflexo negativo daquilo que sustenta a sua própria existência. Talvez aqui a crítica latente seja a uma concepção de dialética, mas não foi essa a intenção no início disso, embora haja uma dialética operando quando se delimita esses antagonismos como formas de autopreservação das identidades. Opor-se seria aqui identificar-se com o seu contrário na necessidade de afirmar a sua própria existência. Quando transportamos esse pensamento para a clínica, o que temos é a ideia de uma existência que se torna codependente de outra para a sua manutenção.

30 julho, 2017

30 de julho de 2017

O dia que eu ver uma galera de esquerda com um fuzil nas costas, daí que eu vou dizer que se lacrou alguma coisa. Eu costumo brincar que tanto se dizia que o fascismo não passaria que os fascistas passaram por cima com tanquea ignorando qualquer resistência. Tenho feito muito pouco ativismo nas redes sociais, muito por estar cansado dos discursos. Está tudo meio merda e eu vou ser só mais um incongruente que não toca uma pedra na cara da repressão. Enfim, uma vez eu vi uma pessoa dizendo, "pena que eu não estou aí, porque se tivesse fazia e acontecia". Mas tenho as minhas dúvidas se a pessoa em questão faria alguma coisa mesmo ou só falava isso do conforto de estar longe demais para tal atitude. O negócio é que estão cagando e mijando na cabeça de todo mundo e algumas pessoas aqui preocupadas com a ditadura do Maduro. Se a direita se organizou para dar um golpe aqui e retomar o poder dos governos bolivarianos, por que isso seria diferente na Venezuela? Onde o Chavismo enfrenta essa mesma resistência há mais de década. Isso me faz lembrar de um documentário sobre o PCB e a ruptura provocada por Marighella, onde era lembrado que este resolveu tomar uma atitude mais radical porque estava cansado das constantes discussões e debates sobre o golpe. Como já disseram alguma vez, é importante conspirar, mas o problema é que essas conspirações estão provocando cada vez mais desacordos, desencontros e por causa de quê? Egos, egos muito grandes, egos do tamanho do Maracanã e que fazem todos surdos e sedentos por poder. E nem digo grandes poderes, falo de pequenos e minúsculos poderes, como o poder de dormir à noite com o ressentimento saciado. Um bando de ressentidos isso sim, esquerda ressentida. Olha lá a ditadura do Maduro, que ataque aos direitos humanos, diria alguns militantes fervorosos enquanto os tanques dos fascistas esmagam os seus próprios ossos do lado de cá30. Tem uma cena muito boa num filme onde a moça coloca uma flor na ponta do fuzil e o soldado dispara, provavelmente matando-a. É isso que é o fascismo, nada de flor e marijuana, é tiro, porrada e bomba. Mas vamos preservar os DCEs, as violas e Caetano, talvez assim a revolução dos povos aconteça desde as periferias. Alguém disse, a esquerda saiu das vilas e as igrejas evangélicas assumiram. Totalmente verdade, aqui mesmo no meu bairro tem mais igreja que farmácia e talvez mais que boca de fumo. Agora o Deus é outro e tem gente ainda tentando matar o pai primitivo. Porém, não querem muito dividir esse poder, esse projeto de poder, porque ninguém mais o merece tão bem assim, e assim os tanques desfilam numa parada de niilismo e sexo anal. Mas não me deem bola, como disse, é só mais um incongruente com medo de fuzil.

28 junho, 2017

Bagaço rimado, 28 de junho de 2017

Escolhesse ocupar o espaço.
Escolhesse o fino do traço,
que se perdia na força do braço
quando não por acaso pensasse
que era o fogo o fio do embaraço.

Pensasse em atravessar a ponte,
em saltos que edificasse
mas por dentro só há fome
e da carne seca só o bagaço.

Experimentasse qualquer forma oculta
de força há, quilo recusasse.
Porém, ficasse ao relento
à espera só do tempo
que aos poucos se levantasse.

23 junho, 2017

Oculto, 23 de junho de 2017

E se falássemos do oculto, se falássemos daquela pequena parcela de história que se come pelas beiradas como se preservássemos no centro todo o calor e a intensidade dos sabores? E se nesse intervalo de tempo, entre o gozar e o perder-se na narrativa, pudéssemos estar afogados numa atmosfera de vibrações que no início não pareciam mais que gestos obtusos de figuras díspares da imaginação? E se pudéssemos construir uma espécie de marco que ao restringir aproximasse ainda mais os ouvintes do centro doce dessa atmosfera recalcitrante? E se o olhar fosse apenas o retorno oblíquo de algo perdido num redemoinho de experiências etéreas e confusas sob a particularidade do sonho? E se os dias e as noites se completassem ao hemisfério oculto do ser? E se cada porta ou janela não fosse mais do que o reflexo da transparência atravessada das cores um tanto desbotadas e fragmentadas de objetos cotidianos? E se pudéssemos tocar o ar como se tocam as nuvens de tempestade numa tarde sufocante de um domingo monótono?

05 junho, 2017

05 de junho de 2017

Dizer que um partido político precisa fazer a sua autocrítica parece algo coerente de se dizer politicamente, principalmente se nós nos supomos sujeitos capazes de auto-análise. Mas será que um partido, entendido como uma instituição auto-regulada, é capaz de fazer este movimento de crítica interna de si mesmo? Quando falamos em autocrítica, no sentido individual, supomos que o sujeito em questão é capaz de questionar suas condutas, avaliar seus pensamentos, refletir sobre suas atitudes e planejar, conscientemente, estratégias de mudanças daquilo que não está de acordo ou que causa algum sofrimento pra si ou para o outro. Mas quando falamos de partidos políticos, o que pensamos quando levantamos esse argumento da autocrítica? E o que desejamos que, aquele partido consciente de seus problemas, faça enquanto um movimento de autocrítica? Levanto esse ponto por uma critica apenas, que é a de que um movimento de autocrítica, de auto-análise, de reavaliação de suas decisões é algo simples e corriqueiro que tanto pessoas quanto instituições fazem constantemente. Se isso fosse algo tão corriqueiro, podíamos dispensar psicólogos, psicoterapeutas, psicanalistas, porque esse processo seria inerente e, por assim dizer, auto-gestionado pela pessoa. Talvez aqui eu não esteja levando em conta que aqueles que pedem a autocrítica de partidos levam em consideração a dificuldade inerente de tal empreitada, tanto no aspecto individual quanto no institucional. 

Mas, na minha opinião (vejam bem, é uma opinião, com alguma reflexão, mas mesmo assim tão superficial quanto uma opinião leiga), aqueles que pedem autocrítica o fazem por um motivo moral, por um movimento de, ao exigir a autocrítica, o indivíduo ou partido se moralize. Isto é, que reveja seus problemas, suas atitudes, suas deficiências e busque melhorá-las. Logo, aquele que pede a autocrítica de algum partido político, considera a moral algo importante para o jogo político institucional e deseja que, ao menos em tese, mesmo os seus adversários ou simpatizantes levem isso em consideração como estratégia de atuação política. Embora eu acredite que aspectos ético-morais não sejam despregados da atuação política como um todo, penso que o ponto levantado sobre a necessidade de um partido fazer a sua autocrítica deposita demais nesses partidos algo - que por um determinado ponto de vista atual - pelo qual esses nem se abalam. Quer dizer, temos alguns exemplos bem divulgados de problemas morais na política brasileira que não têm abalado, ao menos estrategicamente, partidos ou governos. No caso do governo federal, parece que a legitimidade moral dos seus membros é algo acessório e até invertido para o caso de alguma alocação de cargo de ministro.

07 maio, 2017

Amianto, 07 de maio de 2017

Árvores e aves de amianto, câncer certo de cidade.
Paladinos, feitiços e amores, concreto seco e cigarro,
uma folha verde de espanto.
Fendas, navalhas e acentos,
futuro dilacerado pelo passado, administração pública do delírio.



10 abril, 2017

Fósforos, 10 de abril de 2017

Imaginem uma caixa de fósforos, com todos os seus palitos de fósforos. No meio dos palitos retos, há um palito torto. Imaginem uma caixa de palitos de fósforos onde tem um palito torto. É um palito como todos os outros palitos, mas é torto. Ele tem a mesma função dos outros palitos, tem o mesmo fim dos outros palitos, mas é torto. Se riscá-lo ele vai acender tão perfeitamente quanto os outros, não vai quebrar, não vai falhar, mas ele é um palito torto. Numa caixa onde todos os palitos são iguais, existe um palito torto. Claro que nem todos os palitos são iguais, eles têm lá suas pequenas diferenças, suas ínfimas diferenças. Mas olhando assim por cima são todos palitos semelhantes, são todos palitos iguais. Uma pequena diferença aqui, outra ali, mas nenhuma como a do palito torto, que é igual a todos os outros no seu fim de queimar, mas é um palito torto. A questão não é sobre a diferença ou a igualdade entre os palitos. A questão é a caixa. Dentro da caixa o palito torto tem o seu lugar junto aos outros palitos. Dentro da caixa os outros palitos o acolhem, se ajuntam a ele, se arrumam ali com ele, mas ele é um palito torto. De todos os palitos retos existe um que é torto, essa é a fábula. Ele não é um palito rebelde, um palito desviante, ele é apenas um palito torto. Um palito como todos os outros palitos no fim de acender uma chama. Foi um defeito da máquina que produz palitos ou um defeito da madeira de que são feitos os palitos, mas naquela caixa de palitos de fósforos veio um palito torto.