20 março, 2017

Loucura

Em breve defenderei minha dissertação sobre a loucura, sobre aquilo que tenho vontade de dizer sobre a loucura, com tudo aquilo de verdade e honestidade desses anos que venho trabalhando com esse tema. Embora tenha baseado minha dissertação em Foucault, acho que a melhor pessoa pra falar de loucura hoje em do ponto de vista filosófico é Peter Pelbart, cada texto e cada ensaio dele me tocam muito naquilo que sinto sobre a loucura, sobre o desatino, sobre toda experiência marginal que foge dessa instituição entendiante de se ter razão o tempo todo. Sabem, isso é uma das coisas que mais me decepcionaram na filosofia acadêmica. Não que eu já não esperasse por isso, até porque eu era um leitor atento a Nietzsche. Toda a crítica que fiz ao racionalismo da psicologia no meu tcc foi baseada em Nietzsche e um pouco em Foucault, mas aprendi que a razão é ainda algo muito soberano na filosofia, isso no sentido de que na filosofia, mesmo as perguntas devem ser feitas da forma certa, não permitindo qualquer delírio. É por isso que autores como Deleuze ainda são muito mal vistos dentro dos departamentos de filosofia, mas mesmo quando é aberta uma nesga de ar nesses departamentos (mofados em alguma medida), o movimento de institucionalizar um pensamento e o canonizar é a regra corrente na academia até hoje. A loucura é aquilo que foi durante muito tempo institucionalizada, tutelada, medida, avaliada, governada por essa mesma lógica da ordem dos discursos. É a lógica de uma razão totalizadora que define o seu limite para poder governá-lo. Mas não acredito que esse limite seja tão rígido quanto nos fazem pensar as convenções da racionalidade, sejam elas médicas, científicas ou filosóficas. Racionalidades que transformaram a loucura em um conceito e a partir daí puderam neutralizar todo o risco inerente a esta instância humana que já foi tida como mágica ou mística. Sendo que a loucura como doença mental sequer foi uma regra na cultura em que vivemos, nossa cultura ocidental, essa dos europeus brancos e cheio de doenças. Até a Renascença a imagem mística da loucura habitava a imaginação de artistas e filósofos, mas isso foi mudando e hoje apenas o distúrbio da doença impera. E numa sociedade que não suporta se ver doente, isso é um baita de um problema. Autores como Laing e Cooper, Basaglia, Szasz tem mostrado como os interesses morais e econômicos têm se relacionado com o modo com que tratamos a loucura ao longo do tempo. Eu diria que desses quatro, talvez Szasz seja o mais radical em apontar pra definição de doença mental como um problema moral como uma invenção de nossa sociedade. Esta perspectiva não é muito distante da perspectiva de Foucault em Doença mental e Psicologia, mas o filósofo francês abandona cada vez mais essa problematização ao longo dos anos, se concentrando na questão das relações de poder que atravessam o louco, o médico e o manicômio. Sabem, recentemente eu vi o filme da Nise da Silveira e não gostei muito. Eu conheço a história da Nise desde a graduação e mais intensamente durante meu período na iniciação científica onde trabalhei com histórias de pessoas com esquizofrenia. Vejam, minha base pra falar de loucura não começou ontem e venho pensando criticamente sobre o assunto há pelos menos uns quatros anos. Não gostei muito do filme porque achei ele meio ingênuo no início, embora a atuação dos loucos refletisse um pouco dessa estranheza que se tem quando se trata da loucura. Comparado à ingenuidade inicial que tive com o filme da Nise, destaco a força, um pouco abafada em algumas partes é verdade, do documentário A loucura entre nós. É um documentário rico, porém não deixa clara sua intenção em falar de loucura e os momentos que mais me interessaram foram os que podemos ver a dinâmica de relações entre as pessoas dentro do hospital psiquiátrico. Também me lembro do impacto que tive quando vi pela primeira vez Estamira e como aquilo mudou minha perspectiva da relação com a loucura dos outros, com tudo aquilo de verdade que a loucura dos outros tem. Ainda não assisti o documentário O Holocausto brasileiro, porque no início tive um receio quanto à minha organização, embora não pareça, é preciso ter realidade dos nossos limites e de nossos receios. Com todas as experiências que tive com a loucura até hoje, algumas parcas e outras mais teóricas, sempre me senti fortemente afetado com tudo. Sabem, afetos mesmo, aqueles de sentir no corpo. Esse tipo de afeto não interessa à razão que tomou conta dos discursos sobre a loucura. Para ela, esses afetos são desorganizadores e não devem ser levados em consideração. Em algumas situações dessa minha caminhada tive essa experiência de ter que ignorar qualquer relação que ultrapassasse a neutralidade do conceito, da profissão, do papel social que ali eu estava representando quase como que performativamente, porque era assim que tinha que ser, nada além disso. Mas aprendi com essas experiências e hoje as uso para escrever o que supus ser uma dissertação de filosofia. Então quando eu defender lá no dia 27 minha dissertação, não estarei falando de Foucault e de sua filosofia, de seus conceitos, de seus cânones, de seus comentadores e da tradição que o cerca, estarei falando de mim, estarei falando de todos esses anos que passaram e que se prolongaram, que me provocam a falar de algo que tem dito muito mais de mim do que qualquer outra coisa nesses anos todos. É preciso ter a coragem da verdade pra falar sobre loucura, é preciso ter coragem pra tal tipo de delírio num lugar onde impera as luzes da razão. Escrevi isso agora porque me deu vontade e assim o fiz.


Março de 2017.

13 fevereiro, 2017

13 de fevereiro de 2017

Cada vez mais eu tenho me aproximado da percepção de que o Facebook é a terra (bem concreta em até certa medida) das falsas polêmicas, das falsas problematizações, das falsas desconstruções, dos falsos essencialismos e até dos falsos simulacros. Pois, explico, a brevidade dos pontos críticos levantados não permite que tais temas polêmicos sejam de fato esgotados na sua dimensão de polêmica e passem a ser pensados dentro de uma determinada estrutura de reflexão, de crítica, de análise que se dê pelo menos óbvio, mas também, pelo mais descaradamente simples e aparente. E a questão aqui não é a da informação ou do conhecimento (de quem tem ou não tem essas coisas), mas a da desconfiança e do distanciamento em relação ao problema. Um mecanismo muito comum do fb é a convocação para um rápido posicionamento, para uma rápida opinião, daí que todo mundo se sente impelido a fazer um julgamento das manchetes, dos enunciados pequenos, dos tweets. Tipo, como quando aparece um post sobre o uso de anticonvulsivantes no tratamento da bipolaridade. Logo aparecem os especialistas que detém o conhecimento sobre o assunto e dissertam sobre ele, mas sempre com um background de opinião, fora o aspecto moral de seus discursos; e também aparecem aqueles leigos dispostos a uma boa opinião, os opiniáticos de plantão. Enfim, esse exemplo é fictício, mas a questão é que as polêmicas de facebook ficam por aí mesmo, ficam na dimensão de polêmicas como se fossem problemas, mas não são. Quer dizer, são, mas também não são, por que são problemas que surges pela própria polêmica em si, em função dela e sequer são discutidos fora disso. Por isso é cada vez mais difícil discutir no facebook, a terra dos falsos problemas, dos falsos dilemas.
(Não disse em nenhum momento que existem problemas e dilemas verdadeiros)

11 fevereiro, 2017

Poema de sábado, 11 de fevereiro de 2017

Faz tempo que não escrevo um poema, um poeminha que seja
E não por falta de desejo, por falta da angústia do dizer,
Mas porque me tiraram alguma coisa,
me tiraram meu pouco pedaço de carne, meu pouco pedaço de corpo
e vivo assim descorporificado, desfragmentado.

Vivo assim meus dias vagando entre o que fui e o que não sou
E não tem dia sequer que não pense no tempo das almas,
No tempo latente entre o presente e o futuro de uma emergência insólita.

Não há dia que eu não sonhe com o abismo, com o inconsciente abismo de nós mesmos.
E quão profundo é o abismo sobre os céus numa redenção miraculosa de tédio e fumaça?

Só a poesia, um pouco sem graça, congela no papel a angústia do poeta.
Antes fosse uma natureza calma e promíscua que regesse as leis da descorporificação,
Mas é o retorno, é o abalo das horas insólitas que fazem do homem semente e relógio.

02 fevereiro, 2017

Deus, uma dúvida

Algumas pessoas pensam que sou ateu, talvez por causa da filosofia, do comunismo ou de Nietzsche, não sei. Só sei que não sou, não sou ateu. Mas também não sou religioso, o que é bastante diferente na minha opinião. Penso que as religiões são invenções humanas, discursos humanos históricos e culturalmente localizáveis com suas particulares tramas de sentidos. Algumas destas tramas não fazem nenhum sentido atualmente para a minha existência, mas não quer dizer que não devo respeitá-las na singularidade e na diferença que estas constituem. Talvez por ter tido uma formação religiosa assentada no sincretismo de matrizes religiosas diversas, pude ver um pouco delas com certa exterioridade, certo olhar crítico que me fez distanciar, mas não execrá-las como muitos o fazem. Nietzsche diz que a nossa crença na ciência ainda é uma crença tal como a da metafísica religiosa. Seja qual for a ciência, o culto delas é quase um culto religioso com seus abades e tudo mais. Apenas troca-se o conceito de Deus pelo Deus conceito e ficamos por aí mesmo. Enfim, não foi por isso que comecei esse texto e nem tenho pernas para desenvolver mais sobre isso. O que eu quis fazer mesmo é um tipo de esclarecimento público. Mas também não me perguntem pelo conceito ou ideia que tenho de Deus, ainda não sei, é sempre uma dúvida, uma dúvida não no sentido cartesiano do termo, mas uma dúvida tão somente.

20 dezembro, 2016

Se tem uma coisa que me incomodou neste ano de 2016 foi a falta de respeito generalizada. Este ano foi um ano sem debate, sem mediação, sem consenso, sem qualquer tipo de esclarecimento ou crítica. Todas as decisões tomadas neste ano de 2016 foram arbitrárias, passaram por cima de qualquer tendência democrática do dito mundo livre. Neste ano que se encerra, me ficou cada vez mais claro que a democracia burguesa, que o dito estado democrático de direito é uma ilusão, um engodo para as massas analfabetas politicamente, senão moralmente perversas. A perversão na política institucional mostrou-se em sua totalidade, sem ocultar ou dissimular nada. E uma tropa de acéfalos bem alimentados aplaudiram toda esta perversidade. Rancière diz, no Ódio à democracia, que a democracia já é viciada desde o início, infelizmente não está errado o filósofo francês. Não vi coisa mais viciada neste ano que a palavra democracia, palavra saturada de vícios, palavra maltratada. Depois de tanto desrespeito, ainda teremos uma retrospectiva midiática cínica, bajuladora, falsa desde a raiz. Outra vez os palhaços aplaudem em nome de quê? O que tanto aplaudem essa gente que ignora que a corda sempre arrebenta do lado deles? Talvez isso seja apenas um sintoma de final de ano, um patologia social que nos toma conta antes de comer um galináceo gigante numa festa pagã.

14 dezembro, 2016

Em alguns anos não haverá mais indígenas no Brasil. A saúde pública se ainda tiver, estará sucateada e a educação completamente miserável. O acesso ao ensino superior estará tão caro e distante quanto sempre foi. As mulheres ainda não serão donas de seus corpos e os velhos morrerão de tanto trabalhar. As periferias incharão como nunca e as oligarquias estarão tão ricas como sempre estiveram. Não há redenção neste futuro, não há utopia moral que possa corrigi-lo. O futuro é apenas o reflexo de nossa condição, reflexo das contradições do individualismo, do empreendedorismo capital do indivíduo, do investimento na besta-dinheiro que corrompe a tudo e a todos que toca. Não há essência pura alguma por trás do solo frio e estéril do capital. Há apenas a perversidade do lucro, a brutalidade da guerra e da morte. Quem dera as utopias realistas se efetivassem como numa brincadeira de criança, onde a imaginação produz realidades sublimes e concretas. A besta-fera do dinheiro devora até as crianças e os seus sonhos, e os velhos brancos esqueceram que um dia foram crianças. Não há promessas de riquezas que possam tapar o dolorido buraco de uma vida sem imaginação, sem o recomeço da infância daqueles que sonham e lutam para que o brincar não se perca. A imaginação é como um suspiro olhando pela janela, cria mundos feitos de instantes.

12 novembro, 2016

O desenvolvimento econômico e social ocorrido no Brasil na última década é inegável, nunca se teve tão facilitado acesso à educação superior, a créditos e às melhoras na condição de vida do brasileiro médio. Nunca os ricos foram tão ricos, nunca os pobres tiveram tanto acesso, mesmo que parcos na sua radicalidade, a direitos e políticas sociais. Porém, nunca vimos tanto ódio destilado nas ruas, nas redes sociais, na internet, na política institucional, a céu aberto. Explicar de onde vem esse ódio, suas causas e seus efeitos é chover no molhado, ao menos para àqueles que com o mínimo de atenção e crítica aproveitaram todas as informações disponibilizadas de maneira cada vez mais rápida e imediata. Se há 30, 40 ou 50 anos atrás a repressão impedia toda forma de agrupamento e troca de ideias subversivas, hoje, muito em função da internet, podemos nos organizar contra essas práticas dos poderes hegemônicos e fazer frente aos retrocessos e as violências dos governos autoritários pelas vias digitais. Em larga medida o avanço do medo e do ódio também produziu uma massa de assujeitados pelo poder dominante, mônadas isoladas nos seus individualismos completamente idênticas umas a outras, reproduzindo todo tipo de lixo mais degradante e assombroso que alguém pode produzir. Receio em dizer que tais indivíduos são desumanos nas suas práticas, porque o fascismo é, ao meu ver, a expressão mais cruel do humano. Os regimes totalitários nazifascistas eram operados por humanos, por homens reais sob a justificativas de serem superhomens. Já disse em outra oportunidade das potencialidades monstruosas de homens reais capazes de extinguir a diferença representada por outros humanos. Diferenças conceituais entre homens e humanos à parte, o que estamos diante é inegavelmente produção de nossa cultura. Se a cadela do fascismo está sempre no cio, acredito que no Brasil ela está prestes a parir. Não quero ser fatalista ou pessimista, até porque isso me vem como um dado de realidade, ela está aí para quem estiver disposto a ver. Embora seja um diagnóstico ruim do presente, penso que o prognóstico do futuro possa ser melhor. Mesmo com tanto ódio nunca se viu tanta diversidade sendo celebrada, tantas vozes fortes e cantantes gritando por um futuro menos aterrorizante e opressor. Tantos jovens mostrando sua força crítica, sua potência em lutar e aprender cada vez mais. Engana-se aquele que pensa que a história do Brasil é a história do inconformismo popular, a história do adormecimento das vozes revolucionárias. Isto é o que as vozes hegemônicas querem nos fazer crer. Uma breve olhada em nossa história e veremos tantas insubmissões, tantas revoltas contra às violências institucionais. Enfim, já nem sei mais porque comecei esse texto, me deu vontade de escrever aos amigos atentos que têm um pouco dessa insubmissão em seus corações e mentes. Talvez a política seja um pouco de paixão, um pouco de enlouquecer diante de uma realidade tão angustiante. Então, fica aqui meu desabafo compartilhado com todos àqueles que têm fome e sede de justiça, que não estão na saudade e constroem a manhã desejada.